29/07/2018

Há 80 anos, morria Lampião, o maior bandido do Brasil

Por 16 anos, Virgolino Ferreira da Silva foi o terror dos sertões. Nenhum criminoso espalhou tanta violência por tanto tempo, com tanto sucesso.
Ainda em vida e durante as oito décadas após a morte de Lampião, cresceu a imagem de "bandido-herói", que tirava dos ricos para dar aos pobres. Em 1931, o New York Times afirmou que seria espécie de Robin Hood, que tira dos ricos e dá aos pobres. Ideia que esconde o assassino brutal, que matou inclusive mulheres, crianças e idosos de forma indiscriminada e que praticava estupros e outras violências contra mulheres. As boas ações existiram, mas eram exceção. 
Lampião sabia que estava sendo visto e gostava disso. Quando seu espólio pessoal foi resgatado naquela madrugada de 28 de julho de 1938, momentos depois da morte do bando pelas forças volantes do tenente João Bezerra, encontraram em seu bornal um exemplar do livro que levava seu nome, de autoria do escritor e médico sergipano Ranulfo Prata. Às margens das páginas, anotações do próprio Lampião sobre o texto. Outro escritor, Leonardo Mota, cearense de Pedra Branca, escreveu em 1930 que Lampião parecia "possuir a volúpia da espetaculosidade". "Era o maior marqueteiro de si mesmo", afirma em entrevista a O POVO o historiador Frederico Pernambucano de Mello.
O maior risco que Lampião, o Rei do Cangaço, vingativo e temido até em pensamento, correu foi quando ficou frente a frente com Maria Gomes de Oliveira, uma baiana alva, baixinha, de nariz arrebitado e pernas inesquecíveis, que tinha sido mulher de Zé de Neném-sapateiro aos 15 anos e, naquele 1928, com 18, voltava a ser dona de si. Desde que lhe pediu que bordasse as iniciais CVF em 15 lenços de seda, quando de passagem pela fazenda de Zé Felipe e dona Déa, o Capitão ficou sob a mira da filha deles. 

No interior de um Brasil bruto, lá onde a cultura do domínio e da obediência ainda era intocada, as mulheres sertanejas - mais longe no espaço e no tempo do que as outras - cumpriam a sina primária de serem mulheres: nasciam para casar e ter filhos, sem direito à vontade e à história próprias. Ao cruzar os sertões nordestinos, indo já para a década de 1930, o cangaço significou uma arriscada rota de fuga para 60, 70 mulheres (o registro histórico é inexato).  
 

A transformação de Maria Gomes de Oliveira, a Maria de Déa, em estrela nacional começou no dia 29 de dezembro de 1936. Naquela terça-feira, os leitores de O Povo, de Fortaleza, viram, pela primeira vez, a imagem da mulher que largara o marido para viver com o fora da lei mais procurado do Brasil.
 
DOIS CAMINHOS PARA PERCORRER AS ROTAS DE LAMPIÃO

Pelo tempo ou pela geografia, confira duas maneiras de conhecer a trajetória do rei do cangaço.
 
Os itinerários de Lampião demarcam um mapa próprio de violência pelos sertões. Certa feita, chegou a declarar que sonhava ser governador. Gostaria de administrar um novo estado sertanejo, formado com parcelas de Pernambuco, Alagoas, Bahia e Sergipe. Nunca pisou em capital alguma. Com ferramenta de georreferenciamento do Google, o mapa abaixo elenca 84 momentos da vida do maior dos cangaceiros, situados conforme a localização geográfica. Separado por cores e camadas, o mapa mostra episódios de guerra e paz marcantes na trajetória. E dá a noção da extensão do terror que varreu os sertões.
Mossoró, no Rio Grande do Norte, foi a maior cidade atacada por Virgolino Ferreira da Silva. Sua ação mais ousada - e sua maior derrota. O bando de Lampião encontrou feroz resistência e, após cerca de uma hora e meia de combate, bateu em retirada. Na fuga, dirigiram-se ao Ceará. Em 15 de junho de 1927, chegaram a Limoeiro do Norte, no Vale do Jaguaribe. O bando entrou na cidade dando vivas ao governador José Moreira da Rocha e ao padre Cícero Romão Batista. De todos os estados nos quais esteve, o Ceará foi, de longe, o que menos sofreu com a violência imposta por Lampião. 
Em Juazeiro do Norte, na mesma ocasião em que esteve com o padre Cícero, Virgolino reuniu a família, grande parte da qual havia ido morar na meca do Cariri. Foi a última foto de família. A foto foi cedida por João Ferreira, irmão de Lampião, para publicação no livro de Billy Jaynes Chandler. Na foto, Lampião está sentado à direita e seu irmão Antônio à esquerda. No centro está João, único que não entrou para o cangaço

Um dos segredos do sucesso de Lampião era a capacidade de esconder seus rastros. Usavam vários estratagemas para disfarçar sinais de sua passagem. Apagavam pegadas, caminhavam para trás de forma a ocultar a direção. Para muitos soldados que o perseguiam, o cangaceiro parecia ter poderes sobrenaturais. 

A longevidade de Virgolino como maior bandido dos sertões se explica em grande parte por estratégias que consistiam em lutar apenas quando em condições favoráveis, fugir quando o cenário se tornava desfavorável, esconder os rastros e manter ampla política de alianças. Métodos semelhantes às guerrilhas, mas desprovidas do caráter político.
 
O cangaço é um gênero cinematográfico tipicamente brasileiro, cuja temática foi consagrada no cinema nacional por clássicos, como O Cangaceiro (Lima Barreto, 1953) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha, 1964). Os primórdios dos filmes de cangaço remontam às décadas de 1920 e 1930, quando o movimento histórico ainda existia e Lampião vagava pelo sertão nordestino, povoando o imaginário popular com suas aventuras, para o bem ou para o mal. 

Ao longo dos 16 anos nos quais foi o principal criminoso dos sertões, Virgolino Ferreira da Silva acumulou muitos inimigos que o combateram com destemor e empenho. Para desgosto de vários deles, Lampião  veio a morrer pelas mãos de alguém que não era referência de coragem nem honestidade, era suspeito de colaborar com os cangaceiros e liderou o ataque em Angicos quase por acaso. 
  
Em 29 de julho de 1938, o New York Times publicou que "one-eyed Lampeão", "one of the most ruthless killers of the Western World, havia sido morto. O mais prestigioso jornal do mundo se referia ao "Lampeão de um olho só" como "um dos mais temíveis cangaceiros do mundo ocidental".


Livro de Chandler
Na orelha do livro do historiador Billy Jaynes Chandler, que escreveu o que talvez seja a mais importante obra sobre o cangaceiro, é dito: "O que Jesse James foi para os Estados Unidos, Lampião foi para o Brasil, e até mesmo em dose mais forte". Soaria provinciano, não fosse a obra de um americano.

Passados 80 anos, não se tem a dimensão do interesse e curiosidade mundiais despertados pelo chefe de um bando criminoso que nunca pisou numa capital de estado e restringiu suas atividades às regiões mais pobres de um País então ainda mais periférico. Durante 16 anos, foi o criminoso mais temido, procurado e também admirado dos sertões. Não há paralelo em trajetória tão duradoura e bem-sucedida nesse tipo de atividade.
No mesmo dia em que a notícia estava no New York Times, O POVO trazia em manchete: "Decapitados Lampeão, sua mulher e nove comparsas". A informação foi festejada mesmo em locais dos quais o cangaceiro jamais chegara perto. "A notícia, como era natural, causou viva sensação no Rio, cuja população aguardou com enorme ansiedade sua confirmação", informou O POVO naquele dia. A festa na então capital federal era previsível, pois o combate ao cangaço se tornara questão de Estado para o governo Getúlio Vargas. Estava em seu começo a ditadura do Estado Novo - e nada era mais velho e atrasado que o cangaço.
A ansiedade quanto à confirmação, relatada pelo O POVO, era previsível. Em pelo menos oito ocasiões, houve informações falsas sobre a morte do "rei do Cangaço". A última delas havia surgido em Sergipe e divulgada em 12 de janeiro no O POVO e um dia depois no New York Times: "Nº 1 bad man dies in his bed in Brazil" - "homem mau número um morre em sua cama no Brasil. A informação, equivocada, apontava que Lampião teria sido vitimado por tuberculose.
A notícia da morte no New York Times mostra que a fama do cangaceiro ia muito além do Nordeste e do Brasil. E o fato de o boato sobre sua morte ter sido veiculado antes demonstra que o interesse por ele não era esporádico. Virgolino Ferreira da Silva - conforme a grafia com "O" de sua certidão de nascimento - era personagem sem paralelo no Ocidente. Para os estrangeiros, tratava-se de curiosidade pitoresca. Para os Estados Unidos, soava como reminiscência do Velho Oeste.
Para o sertanejo, era personagem algo que lendário. Atribuíam-se a ele poderes místicos, "corpo fechado" para tantas vezes ter escapado. Ao morrer, falou-se que teria sido envenenado com vinho. Décadas depois, dizia-se que ainda estava vivo e refugiado no então pouco povoado estado de Goiás. O cangaço - e seu "rei - influenciaram decisivamente a ideia que se faz de Nordeste, inclusive esteticamente. A mitologia em torno de Lampião criou ainda a imagem, até hoje difundida, de um "bandido social", um Robin-Hood dos sertões. Não era bem assim.
Lampião não morreu de tuberculose, tampouco pelas mãos de algum de seus inimigos mais empenhados, corajosos ou competentes. A ação que finalmente o matou foi liderada por policial suspeito de colaboração com criminosos e teve muito de acaso.
A partir do acervo do O POVO e do livro de Chandler, O POVO Online inicia série de reportagens sobre os 80 anos da morte do rei do cangaço, o alcance da violência que espalhou e a marca que deixou no imaginário dos sertões.  



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