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Irecê: Ao sair de escola municipal, criança de 7 anos pega ônibus errado e porteiro diz que a culpa foi dela

13/03/2019

Por: Eraldo Maciel

O aluno, de 7 anos de idade, não recebeu nenhuma orientação ao sair da escola e entrou em ônibus que ia para outra região da cidade. A mãe, Jainara, o aguardava no ponto de parada próximo à sua casa, mas o menino não desceu... Foi aí que começou um verdadeiro filme de terror.


Todos os dias, a partir das 16h, Jainara Miranda vai para um ponto de parada de ônibus escolar que fica a cerca de 100m de sua casa. Ela é mãe de um menino de 7 anos de idade, aluno da Escola Municipal Tenente Wilson M. Moitinho, em Irecê (BA). Entre as 16h e as 17h o veículo que faz o transporte escolar chega em seu bairro. Ela então pega o seu filho e volta para casa. Enquanto isso, o seu marido, Samuel, está no trabalho.

Essa rotina foi quebrada na última segunda-feira, 11 de março. O ônibus chegou, a porta se abriu, alunos desceram... Mas o seu filho não. Apavorada, ela perguntou ao motorista sobre o filho. Este respondeu que não sabia de nada. O coração de Jainara disparou. Ligou imediatamente para o marido, que correu para a escola. Lá também ninguém sabia de nada, nem a direção do estabelecimento estava presente. Era pouco mais das 16h20, pelo cálculo de Samuel, que começou a procurar seu filho pelas ruas da cidade, principalmente naquelas que dão acesso ao bairro onde mora, conhecido como Loteamento Washington.

O QUE OCORREU
O filho de Samuel e Jainara, ao sair da escola às 16h, não recebeu nenhum tipo de orientação sobre qual dos ônibus deveria tomar para dirigir-se à sua casa. Ele escolheu um dos dois que lá estavam, segundo as informações. Era o ônibus errado. Em vez de ir rumo ao seu bairro, esse veículo seguiu em sentido contrário, com alunos que moram em outra região da cidade, cerca de 4km de onde ele mora. Ao perceber que não era o caminho da sua casa, a criança desceu do ônibus. Outra vez ninguém o orientou. Os ônibus e vans que servem ao transporte escolar em Irecê não contam com monitores.

O menino começou a perambular pelas ruas entre os bairros Ieda I e Severiano Moitinho. Nisso, foi avistado por uma mulher, que percebeu que algo estava errado. Essa mulher, que não teve o nome divulgado, resolveu abordar a criança - e então descobriu que ela estava perdida. O menino disse que estava procurando a sua casa, mas não sabia onde estava. A mulher resolveu levá-lo a uma loja na área central da cidade, onde trabalha. Lá, começaram a divulgar nas redes sociais fotos da criança que, desesperada, não sabia dizer em qual escola estudava. Sem uniforme, estava difícil a identificação. Foi então que lembraram de verificar o seu material escolar, na mochila. Descoberto o nome da escola, ligaram para lá. Já era cerca de 17h30.

Conhecendo o paradeiro do aluno, a escola enviou à Tapeçaria Real, onde ele estava, o mesmo porteiro (conhecido como 'Dourado) que não teve o cuidado de orientar os alunos na saída das aulas. Lá, ele chegou dando "broncas" na criança, acusando-a de ser a culpada por pegar o ônibus errado e também descer em lugar estranho. Ele estava falando com uma criança de 7 anos. De volta à escola, onde a mãe e os avós maternos do menino aguardavam em desespero, outra bronca: desta vez dirigindo-se a Jainara e seus pais, Dourado os pressionou dizendo que "não deveriam ter procurado a rádio" para denunciar o fato. "Ele foi muito agressivo", contou Jainara.

A criança foi devolvida à família quase às 18h. Até o momento em que o vídeo desta reportagem foi gravado, ninguém da escola, da Secretaria da Educação ou da Prefeitura havia sequer ligado para, ao menos, pedir desculpas.

Em entrevista ao jornalista Eraldo Maciel, o advogado Álvaro Carvalho disse que pode estar caracterizado o crime de "abandono de incapaz", por parte da escola. Para ele, "a responsabilidade da escola só termina quando a criança está entregue aos pais ou responsável" (veja abaixo).

AMEAÇAS
Na manhã desta quarta-feira, 13, um homem que se identificou como sendo José Coelho esteve na recepção da rádio Irecê Lider FM. Disse que estava ali "em nome da família" da criança envolvida na situação. Afirmou que a emissora estava "proibida" de voltar a falar sobre o assunto. Ao ser avisado que a Lider FM entraria em contato com os pais da criança, "Zé" Coelho se exaltou e fez ameaças aos profissionais e ao proprietário da emissora, J. Sidney, antes de ir embora.

Mais tarde, a senhora Michele Coelho, irmã de Jainara, entrou em contato com o Departamento de Jornalismo do Grupo J. Sidney e pediu desculpas, em nome da família, e reafirmou que o caso "tem de ser divulgado, sim. Até para que se evite ainda mais problemas como o que ocorreu com o meu sobrinho". Ela também disse que a família ingressará com ação judicial contra a escola e a Prefeitura Municipal.

De acordo com Michele, supostamente o prefeito Elmo Vaz teria ligado para José Coelho, que é seu correligionário, e lhe pediu para evitar uma ação na Justiça e também que o caso não fosse mais tratado pela família na imprensa - o que teria motivado a sua ida à Irecê Lider FM para fazer as ameaças.

A emissora informou que está avaliando a possibilidade acionar as autoridades, até porque toda a ação de José Coelho está registrada nas câmeras de segurança da empresa.


Veja, no vídeo, o desabafo de Samuel e Jainara, pais do aluno, e também a opinião do advogado Álvaro Carvalho:


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